quarta-feira, 14 de maio de 2008

My way


O sorriso do rosto já não mais corresponde à realidade. O estar ani- mado e comunicativo não seria, talvez, uma arma que mascara a solidão e a timidez? E os dias viram segundos e o mês de maio se passa. O que faz com que as pessoas fiquem cegas e não achem certas pessoas e oportunidades? Pior, o que faz com que as que as acham não as aproveite? Medo. Medo de ela estar próxima (será?) ou que seja dessas que está cega para mim. Eu, eu ainda espero.
De verões quentes a frios invernos. Frios. E nesse jogo de antíteses, são quase duas décadas completas. A experiência do sentimento de posse, que leva ao ciúme e ao simples desejo e ao gozo se foi. Quer dizer, se quer deu o ar de sua graça. No entanto, conselhos sempre vêm, mas, infelizmente, a sensação é de que nada servem. O eu interior acha que não chegou a hora, e prefere esperar, dando foco a outras tarefas. Pena carregarmos esse vilão conosco. É ele que nos faz relaxar e não ver que o doce da juventude amargou, ou, quem sabe, azedou. A gente, então, deixa de ser agente, passa à paciente. Minha paciência, extrema e exponencialmente age, corre contra a maré, ou seja, foge. Enquanto isso, eu de braços abertos e estendidos espero. Meus braços cansados estão. Caem aos poucos. Junto a eles, minhas lágrimas.


IThauan dos SantosI

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Sensações

Sinto-me exausto.
Exausto da responsabilidade, do compromisso, da obrigação...

da vida.

Sinto-me fraco.
Fraco de saúde, de amor...
da mente.

Sinto-me perdido.
Perdido no mundo...
em mim.

Sinto-me sensitivo.
Sinto.


ILuan dos SantosI

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Silenciosa despedida


O embarque de seu vôo já havia sido anunciado por aquela voz fria e robótica. Um sentimento estranho se apossou de ambos: pai e filho. O que em todos aqueles anos ficou se escondendo por trás das nuvens, parecia defrontá-los na velocidade do vento. E o impacto só seria sentido quando o último segundo chegasse.
Era consensual para eles que aqueles foram os minutos mais longos até então vividos. A relatividade do tempo se mostrou um verdadeiro fato empírico. Tal concordância nunca foi expressa por palavras, no entanto a linguagem do olhar demonstrou as aflições vividas; foi suficiente.
Sabiam que palavras não conseguiriam expressar tamanho arrependimento, oriundo de uma relação dotada de sentimentos vãos. Portanto, não mais fizeram que calar-se.
No momento em que era necessário partir, simplesmente conseguiu abraçá-lo. Era de um abraço verdadeiro e profundo. Foi mais expressivo que horas de conversas. Quando lhe deu as costas, sentiu que sua mão estava segurando à dele. Fixa e intensamente, relutava em largá-la. Mas a largou e o deixou.

ILuan dos SantosI

terça-feira, 15 de janeiro de 2008


Eterna companheira

Assola-me o medo da solidão
Nos olhos parados
De um jovem cidadão
Sentado ao sol frio.
Em meio ao silêncio da multidão

Na memória, vive o bom passado
Duma vida com história
Duma família feliz.
O ontem é o longínquo
Da casa cheia de cor
Do tempo sem abandonos
Onde havia calor.

O hoje não existe
Neste frio de viver
Sem amor.
Depositado numa vida
Tão pura e sem cor.

Essa vida, não sei se a quero:
O ar entra e sai dos meus pulmões
E o coração teima em bater
Em tristes pulsações.
Nos meus olhos parados
Ecoa o grito forte
De quem chama pela morte

Assola-me o medo da solidão
Nos olhos parados
De um jovem cidadão
Que já vive sem ilusão
De viver...
ILuan dos SantosI

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Curta: e a festa tá chegando ...

Setor elétrico em destaque - Brasil teme um novo apagão. Autoridades e especialistas vêm a público pronunciar medidas a serem tomadas, temores. Uns crêem que a possiblidade de racionamento estantâneo é de suma importância, mas estão otimistas em relação às chuvas. Outros, por outro lado, vêem a situação com olhos mais pessimistas.
Enquanto os Estados Unidos vive um crise e a tensão da nova personalidade a ser eleita presidente da grande nação, aqui, no Brasil, só há uma única certeza : o carnaval está chegando. Sim, é fato também, que o preço dos alimentos vem caindo também.

Máscaras cobrirão rostos - literalmente, não como no Senado -, muito confete e serpentina. Enquanto uns passam fome e roubam, outros pulam e beijam na boca. Bahia, O lugar. Muito turista, gringo, enfim, muito dinheiro.

A festa dos alimentos tá acabando; a dos alimentados, prestes a começar.
IThauan dos SantosI

domingo, 6 de janeiro de 2008

O olho que tudo vê

Tais qual aos da mãe. Os fios anelados, por vezes, omitiam-nos, ofuscando a luminosidade intensa que daquele ser irradiava. A maria saía. O joão ficava, pois se acomodara ao perder seu labor. Acomodar poderia não ser o melhor dos vocábulos. Fora exemplar. Dessa forma, explicavam-se o quão perturbado e indignado ficara após a demissão. Explicavam-se também certas mudanças de comportamento, umas, claras e públicas, outras, escuras e particulares.
A busca de outro qualquer ofício que o fizesse não mais precisar ouvir certas verdades de sua mulher (ainda a era?!) era cada vez mais rarefeita. Os papéis, portanto, haviam se trocado. A mulher vestia o terninho e bancava as contas. O homem, o avental e da casa cuidava. Mas a paisagem não era das melhores. O trabalho doméstico nunca era suficiente para ela que estava acostumada à mordomia e a tudo nos seus devidos conformes.
E ia. “Mamãe” ia para a filha. “Aquela” ia para o pai. Esta, com um olhar de esperança e tristeza. Aquela, com um beijinho no rosto.
O pai a arrumava. Já não era mais um bebê, era quase uma mocinha. A água corria corpo abaixo e as mãos, já trêmulas, dançavam. Os olhos, mesmos de maria, o faziam lembrar dos bons momentos daquele ardente namoro e apaixonado casamento. Temia o crime, mas a sede era demasiada.
O sofá os conforta. São vigiados...
Tudo de novo. Maria sai. E dias passam, correm. Para ela, tudo igual. Para a filha, um cotidiano de terror. Aqueles confiáveis olhos azuis pareciam mais escuros. Traziam medo. O único olho sem culpa, transparente, assistia a tudo. Não por querer. Jamais. O absurdo se tornou normal pra joão, e um dever de casa extra para ela. O pai, ele implorava que não contasse para ninguém. Ameaças. Confusa e acuada, calava.
...
E assim cresceu. Entendeu o desejo pelo sigilo de seu pai. Chorou. Porém, não de dor ou medo. Agora, de raiva, de ter compactuado com aquele joão. Poupou a mãe da verdade. Poupou o pai da vida.
Foi mais uma filha “bastarda” para a mãe, para a mídia, para todos – o porquê, ninguém nunca soube, senão aqueles cinco olhos. Foi mais uma vítima do destino e de si. A mãe, mais uma maria trabalhadeira ausente pela situação financeira. O pai, ah o pai, mais um pobre coitado assassinado pela filha - menos um mau caráter na sociedade.

O que os vigiava, o que era obrigado a consentir com aquilo, era surdo, era mudo, infelizmente, só não era cego. É o olho-mágico. Só não fez jus ao nome por não interferir ou reverter aquela situação. Ainda veria muitas famílias crescer, muitas diminuir. Muitos risos, muitos choros. Muitas marias, muitos joãos. Quando ele integra uma nova família, é mais um membro dela. É parceiro de todos, concorde ele ou não.

IThauan dos SantosI

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Querido amigo,

Sei que não é necessário. Palavras não são capazes de expressar com fidelidade e plenitude verdadeiros sentimentos. Entretanto, ainda que o diálogo já tenha ocorrido, a necessidade da caneta transcende e se faz fundamental.
Nada mais éramos que distantes colegas quando os tempos eram remotos, quando os gostos... ah os gostos, que se mostravam os mesmos e os conhecidos, alguns também. Mas ainda não era o momento de nos aproximarmos, de fato. A sabedoria do alheio restringiu-se ao nome, sequer sobrenome.
E o que mais é responsável pelo futuro que não o sopro do vento, o enrugar da pele, o adquirir experiência: o tempo. Ele nunca engana. Pode até mascarar e ocultar, instantaneamente. Mas ele próprio se entrega. É seu fardo eterno.
Foi necessária a intervenção materna. Daquela amizade nasceu a nossa. A nossa amizade. A princípio, muitas semelhanças, mas Ele enganou as diferenças que viriam... Naquele segundo, que mais pareciam horas, dias, anos, bloqueamo-nos para as divergências.
Objetivos conquistados. Risos. Comemorações. E a amizade crescia e parecia nunca parar de ascender. Porém, a mudança de ambiente, novas pessoas, os ciclos se alteram e, com eles, nada mais natural, que os comportamentos para com os demais. O outrem é o antigo, o rústico, o ofuscado. O além é o novo, o belo, o deslumbre. As essências se mantêm, sobretudo.
Mas elas vieram. O antagonismo finalmente [e infelizmente, ou não] se fez presente. Os conflitos apareceram, portanto. Aquela feliz e perfeita amizade, sobre uma corda bamba se mantinha e, nela, muitas tristezas se equilibravam.
O afastamento se mostrou instantâneo e gradual. E o meu desespero também. Acho que pela primeira vez conversamos sobre A Nossa Amizade, fato vastamente importante e enriquecedor para ambos, assim o creio. Certa vez, ouvi dizer que há males que vêm para o bem. Para mim, esse empirismo se tornou científico.

ILuan dos SantosI

Companheira


Ela cresceu comigo. Esteve comigo desde que, grandinho, segundo dizia minha mãe, comecei a assimilar e me padronizar naquilo que comumente chamamos sociedade. A justificativa mudava com o tempo; ela era cada vez mais cabível com minha capacidade mental, mas, infelizmente, cada vez mais próxima daquilo que sabemos, porém não desejamos. O tempo corria. Ela crescia. Esteve comigo na primeira festinha na escola. Esteve também no primeiro momento em que assinei os documentos da faculdade conquistada com muito esforço financeiro de minha mãe para custear o cursinho.
A comemoração deste fato veio com festa e álcool, o que me rendeu uma lição; o primeiro e único levante de mão dela – minha cara envergonhada virou. Não entendi.
A ausência se fez maior quando não mais tolerava as respostas. Fui à busca. Já dizia o velho ditado “quem procura, acha”. Procurei a verdade e a achei da forma mais crua e nua. Já não era mais aquele órfão que precisava ser bajulado para crescer bem em meio à perda. Ouvi a drástica história da boca daquele homem como se fosse a coisa mais normal de se mencionar e de ser ouvida. Aquele homem que sempre me faltou, que nunca foi na festinha do dia dos pais, que sempre estava viajando a trabalho, era mais um documento em meio aos óbitos.
Não suportei o segredo da mamãe. Tampouco a companheira - a ferida - ardeu e eu, eu cedi.

Mais tarde, o hospital. E lá, Ela aproximou-se. Nervosa, veio se desculpar. Em princípio, a repugnei. Entendi, claro, os devidos porquês que a levaram a essa medida. Desejei saber mais, mas fui precavido. Adjetivos podres fugiram daquele pseudo-sorriso conhecido.
E veio a novela, ainda que com resistência e cuidado. A ferida, a ausência, a mentira mutável para o bem daquele triste filho único, misturavam-se e confundiam-se em ódio, medo e graditão. Graditão à aquela mulher que fez o que devia ter feito para amenizar,ou melhor, adiar uma inevitável dor. Ele, ele era mais um daqueles que gastava o que tinha em bebia e o troco vinha sempre para Ela. A situação foi levada até que as dívidas, bem como as brigas o fizeram fechar seus olhos lá, naquele seu novo lar, que o levou a matar um outro e a si próprio. Fora vítima não de seu vício, mas de suas conseqüências – uma arma gemera. Morreu feliz. Junto ao vidro daqueles copos. Sobre o madeira da sua mesa de estar. No meio daquele povo humilde que, de tanto comentar, fez uma mãe fugir descalça, criança ao colo, sem dinheiro, sem destino, sem saber o que fazer.
À raiva, uma lágrima. Ao desespero, aconchego. Ao álcool, aquela, agora, entendida lição.

IThauan dos SantosI

CASULO HUMANO

Nunca teve tanta certeza de que mudanças se faziam indispensáveis. Por muitas vezes, ele prometeu, mas não cumpriu. Jurou, mas falhou. Dessa vez, seria diferente. Ao menos ele faria o possível para tal.
Pequenas, médias ou grandes. Simples ou complexas. Desejáveis ou, até mesmo, indesejáveis. Naturais, espontâneas ou forçadas. Mudanças.
Não conhecia todas as necessárias. Tampouco desconhecia todas. Já possuia um ponto de partida. Parando e refletindo, sabia que nenhuma delas seria tão fácil o quão poderia parecer, pois mudanças são sempre mudanças.
É sabido, entretanto, que todo ser humano é avesso àquelas, logo as teme. Essas o descontrolam, assim como o dissimulam. Elas o modificam. Ainda que a desejemos e a veneremos, sempre é tarde quando chegam, quando chegam...
Se chegarem, ou mesmo se ao menos uma chegar, sinta-se vencedor. Analise se, de fato, seu objetivo foi alcançado. Sempre ele é almejado, porém nem sempre conquistado, o que nos faz retornar a uma atitude ou comportamento já praticado.
No entanto, quando ficam apenas na memória, na esperança, a força de vontade não foi suficiente e, dessa forma, não nos movemos. Parados ficamos. Fixados estamos.
Assim, ele permanece crendo que um dia elas virão. Esta expectativa é capaz de mover vidas. A dele agradece por ela. Mas na confiança de que seu alvo será alcançado. Enquanto isso, novamente ele promete.

ILuan dos SantosI

terça-feira, 30 de outubro de 2007

O Ofício


Aquele problema vivido por ele, ninguém o sabia discriminar. Era necessário recorrer a ela.
Dentro daquela humilde casa temida, que mais parecia a entrada para um sacrifício à saída para a esperança, o triste menino e sua avó sofrida mais perdidos ficavam. A curandeira, enfim, surge daquela pequena porta de madeira antiga.
A avó, já desesperada, apela por uma solução. A outra diz não a possuir, com um tom de quem a conhece; seu olhar sutil era revelador. Entretanto, recomenda que o leve ao Circo que chegou aquele Condado. Não havia reza, erva ou remédio para ele, ainda que seu problema não fosse incurável. No entanto, era necessário conhecê-lo. Era necessário conhecer o palhaço.
Em meio a todo aquele campo, o colorido Circo, grandioso, magnífico, era a atração principal. Chegaram ao meio do espetáculo, porém a obrigação para com ele era de extrema importância: questão de vida ou morte.
Fim do show. Todos, como uma manada, saem. E eles entram. Naquele estado, aquele lugar não justificava tamanha alegria. Solitário, mais parecia uma nebulosa tarde de inverno. Por tudo encontram; da foca ao leão; da bailarina à mulher barbada. Disseram-lhe que se encontrava no camarim. Para lá rumaram.
Era tempo de pegá-lo retirando seu nariz vermelho; aquele lindo e perfeito nariz vermelho. Simplesmente pelo fato de olhar para aquele palhaço, o fardo daquele menino parecia ter se ausentado. Aquele mais sincero sorriso já visto, ou melhor, o primeiro de muitos que viriam, deixou claro para sua avó qual era a solução para o problema dele: sorrir.
O palhaço que se encontrava perdido diante das lágrimas da amável senhora encontrava­-se em uma incognita. Sentir-se feliz por aquele apaixonante sorriso ou triste por aquele leve pranto? Não era necessário. Este simbolizava uma expansiva felicidade. De nada sabia. De tudo desconhecia. Mas aquele emudecer era mais sonoro que uma orquestra.
Conversam por minutos que mais pareceram horas. A senhora explicou ao de nariz vermelho o propósito deles naquele lugar. Afinal, era sua função alegrar aos outros, um grande papel social. O ator social.
Alegrar outrem é uma arte; quem a possui tem grande responsabilidade. Entretanto, aquele palhaço alegre, engraçado e feliz escondia um fardo ainda maior. Atrás dele, existe um homem, um ser humano. Sua mãe, a que morava naquela medonha casa, humilhada pelos vizinhos, refugiada da população por manipular a natureza, a última e mais eficaz para tratamento de “doenças”, não podia ajudá-lo. Sua enfermidade, assim, não era passível de cura. Seu tempo era escasso e cronometrado.
Ele, então, resolveu passar o resto de sua vida a ofertar às crianças, aos jovens, aos adultos e aos idosos, sobretudo aos necessitados, seu grande poder: o poder da felicidade. Não sabia o quão mais poderia resistir àquela grande dor interna, na qual o melhor ator sabia como ninguém mascarar. A única certeza era que até seu fim estaria exercendo seu Ofício.
ILuan dos SantosI

domingo, 28 de outubro de 2007

O tudo preciso. Um nada precioso.

Por um segundo fiquei feliz. Vi uma possível solução. O passado, de certa forma, ajudou para tal. Em alguns poucos minutos, percebo que a peça da vez ainda não era eu, que a sorte ainda me faltava. O desejo omitiu a distância. A solidão, o prazer.
IThauan dos SantosI

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Aquela indução


É de uma beleza intensa. E de um rubro que ameaça à mesma proporção. Em meio àquele verde mar, destaca-se. Ofusca o redor com seu brilho intenso. Diante de seu lado, uma outra a mesma imagem e semelhança, porém “oculta” em meio ao verde. São quase gêmeas. Diante da dúvida cruel, o brilho, o belo atrai. Quando o vermelho dos lábios busca contato com aquele, a amargura do destino o abraça e não permite largá-la. É o pecado, de um sabor podre (cuja intensidade supera a de seu brilho). O destino me pôs numa cilada e nela caí. A linda maçã está estragada. A outra, sobretudo, bela, mas de um belo distinto, maduro. A primeira reporta a valorização excessiva dada à beleza – o físico é o selecionador, aquilo que impulsa a vontade alheia. A outra, infelizmente, retrata o sofrimento dos demais. É sábia, determinada e digna, mas posta em segundo plano. É excluída. É humilhada. É o indivíduo acostumado com aquele sorriso meia boca, com aquele comentário, com o “não”. Aquela é priorizada devido à aparência e seu conteúdo pode até estar podre, ou mesmo nulo, contudo, é aquela que terá a primeira chance, o sorriso escancarado. A mídia dita padrões e seus interlocutores dizem, na maioria das vezes, amém sem pensar. Cabe ser vermelho, enquadrando-se nos padrões pré-determinados, nos preconceitos, sendo tímido e não desafiando o seu interior. Ou ser verde, guerreando com a realidade distorcida em que se encontra e sendo esperançoso. Afinal, somos todos iguais. Somos todos humanos.
IThauan dos SantosI

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Misericórdia Divina



Quase tudo via. O azul mais tênue com personagens animados cor de branco, em formatos arredondados, que com ela queriam e teimavam em brincar. Ao seu redor, vultos acelerados deixavam zumbidos por onde passavam. Não estava bem. Prosseguia em seu destino incerto.
No banco da Igreja, ela rogava pela razão. No entanto, a sensação a amava. A paz daquele lugar a reconfortava, mas a solidão exalava de lá.
Ouve um ruído. Os anjos do vitral se movem e também a chamam. É o desejo por companhia que os Clamam por sua presença, enfim.
Em seu dualismo eterno, ela se ajoelha e reza. Porém, não sabe pelo quê. Reza. Entretanto, começa a se sentir dominada pela vontade de conhecer o novo, o belo. Aquela mulher de preto, que de longe a observava e sentia sua questão existencial, aproxima-se e com ela toma uma conversa. A outra, contudo, de cabeça baixa, reluta em mover-se para saber de quem era aquela voz. Só sabia que era de uma boa alma.

- Qual o seu problema, doce jovem?
- Eles querem a mim. Querem mais amigos.
- Calma, meu amor. Quem são eles?

Não conseguia falar, nem sussurrar. Tampouco era necessário: seus olhos a entregavam.
Calou-se.
Deixou-a.
Em meio a tanta perplexidade, resolveu encarar suas questões. Chega de fugir – dizia e gritava consigo mesma. Foi quando pelos escuros corredores daquela majestosa casa Dele, em meio ao silêncio (que só era interrompido pelo seu respirar) ela, aos poucos, ia observando uma luz ascendente. Aquelas escadas, nem as sentiu subindo, vagarosamente.
A sentir aquela dor, preferiu se entregar. No pico da casa da fé, era onde mais se equilibrava, mais se sentia equilibrada. Não se sentia covarde, mas sim completa, realizada. Aquilo que parecia seu maior problema, mostrou-se sua maior solução. Ao seus cabelos esvoaçarem, naquele vento renovador, presenciou a melhor sensação já sentida. Ia, enfim, ser feliz. Tudo via.
ILuan dos SantosI

"METALINGUAGEM"

Sentado, lendo notícias de “O Estado de S. Paulo”, encontrava-me em uma infinitude de palavras, letras e algumas imagens. Aquele vento do fim de tarde trazia com ele lembranças do passado, reflexões sobre o presente e, sobretudo, temores sobre o futuro que estava por vir. Temores... talvez não, mas inseguranças.
Essa brisa me envolvia por um sentimento sinestésico: do mais doce aroma já antes sentido, do melhor sabor até então provado, da mais bela performance das árvores (e das folhas do jornal também) e do toque mais profundo já ocorrido. Tamanha profundidade trouxe-me novamente ao mundo real e me largou em um lago de paradoxos. O principal deles é sobre o viver; o meu modo de viver.
Dominado pela solidão e isolamento e, principalmente, determinado pelo tempo, viveu (e vive ainda para alguns) em uma hipocrisia absoluta (ou quase) que, possivelmente, é uma das causas que justificam seu dilema.
Novos lugares e ambientes, colegas e amigos, sensações e percepções. Muitas vitórias, conquistas e sucesso – “O orgulho da família”. No entanto, não o observam além daquilo que se podia ver; seu interior, portanto, não passava de uma enorme incógnita que ninguém conseguia decifrar. Tampouco ele.


ILuan dos SantosI

FUGA

Acordo em meio ao som e movimentação excessivos. Passei ao estado de solidão. Levantei e me pus a ler. A necessidade e o gosto faziam dessa atividade, terrível para uns, um prazer inenarrável para mim.
Inquieto e disperso estava quando me dei conta que, ainda que a quantidade de amigos e colegas fosse demasiada, algo faltava. A parceira de tal descoberta (?) foi a solidão.
Outro parceiro, o gosto pelos livros, mostrou-se, a princípio, um vilão, mas refletindo melhor a respeito, mostrou-se ainda mais parceiro. Nem ele, que comumente me fazia enxergar melhor outras áreas, e me tornava cego em outras, deixou, pelo menos dessa vez, essa realidade se omitir no tempo e na correria cotidiana.
O mais poderoso patrão do mundo não pára de girar e eu, eu estou aqui, pensando. Penso nas conquistas, nos bons momentos (e nos ruins também). Enfim, penso na vida. Não deixo de pensar nele que atrai olhares constantes para meus pulsos, nele que me surpreende, nele que hoje me fez ser quem sou. No relógio ... no tempo.
Conhecer bem a si mesmo e ter ciência de que algo mais é de merecimento, mas de presente ausência, dói. Dói mais ainda por saber que não sou o único a ter essa ferida assassina. Por saber que ela tem sede de vítimas. Vítimas já sofredoras – umas curadas, outras não. Vítimas futuras. Vítimas que quase ignoram esse pequeno machucado. Vítimas que sofrem com esse câncer maligno.
Olho por além do agitado tecido e da luminosidade contrastante com meu interior momentâneo e sei que existe alguém com a cura de tal ferimento. Uns com a cura parcial. Um com a integridade de tal. Uns, já mencionados, têm a cura, mas não a efetiva - a presença. A palavra, na maioria das vezes, abafa a dor. Um sorriso familiar, idem. O choro também contribui afinal, somos humanos. Nele, mesmo que a cicatrização não se faça, o afogar das angústias se faz de extrema importância. Seu papel, o de um grito.

Lá fora, em algum lugar lá de fora, o milagroso medicamento. Somos peças de um grande jogo. O participante exclusivo, o destino. Somos mudados de casas a todo tempo. Somos ferramentas de uma estratégia maior. Porém, Ele não deixa de estar presente. Poderoso, pois mesmo nesse âmbito macro, ainda se faz marcante. Mascarado pelo pequeno tamanho físico, mas inigualável tamanho ideológico, o patrão se omite na forma de pó de areia. A gravidade atua, mas suas curvas são acentuadas e ele, mal ou bem, dá seu jeito. Quando Ele decide tomar você como peça principal da rodada, mais em suas mãos você fica. Um jogo: um risco. Ganhar ou perder (?). Quando o xeque-mate é da outra equipe, há a perda da partida, mas o aprendizado para uma outra próxima. Quando logo há o grito de vitória, abre-se o sorriso. De repente, foi uma sorte do destino. Uma pena para você. Não existe a experiência necessária ainda. De um jeito ou de outro, você vai sofrer, você vai perder. Jogar, portanto, é sempre de extrema importância.
Mesmo sem grande prática nesse jogo, o jogo da vida, vitórias, sem dúvidas, já foram realizadas – umas com a sabedoria do merecimento, outras, talvez, por uma sorte do mesmo destino. A espera e a busca incessante pelo gol de placa, pela cesta perfeita continuam. Quem sabe sou a peça da vez e terei a sorte grande?!
Para o fim ser perfeito, ou seja, para reprisar o “casaram-se e viveram felizes para sempre”, só resta essa sorte grande vir da experiência. Se vier da sorte do destino, das duas uma: ou a experiência virá com a prática e com os erros, ou ela simplesmente não virá. Será aquela pseudo-vitória, na qual você sorri, mas logo depois se dá conta que vencedor mesmo foi seu inimigo, que mesmo perdendo, levantou a bandeira branca numa situação melhor, a de perdedor, mas de ganhador de uma experiência necessária para te vencer numa próxima vez.
IThauan dos SantosI