segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Um ensaio sobre a vulner(h)abilidade



Cansei. Dificilmente, escrevo em primeira pessoa, mas cansei. Cansei, inclusive, da terceira pessoa do singular e da primeira do plural, do uso da voz passiva e da partícula “se”, dos pronomes indefinidos, do discurso indireto, das orações sem sujeito... quero mesmo é escrever utilizando o primeiro pronome pessoal do caso reto! Afinal, não o fazer (quase) sempre foi motivo de/para atenuar e para/de negligenciar (meus) sentimentos. Ou melhor, razão de/para.

Falar de razão seria uma ótima maneira de introduzir esta reflexão, cujo tema central venho lidando – e encarando – exaustivamente, nas pequenas e irrelevantes (?) ações diárias, há pelo menos três ou quatro anos. Ao menos de maneira deliberada, é verdade. O início nada romântico desta relação-terapêutica perpassava por uma trajetória de quase (completa) insanidade, nada exteriorizada. Imagine(m) eu...

Após estudos sobre behaviorismo, Gestalt, terapia cognitivo-comportamental e psicanálise, além das distintas e diversas experiências empíricas vivenciadas neste período, tive alguns “resultados” interessantes de auto-conhecimento – certamente, com total ajuda das brilhantes terapeutas que passaram pela minha vida; sim, no plural, pois foram algumas.

Um deles é que “ser forte” é difícil pra caramba! Fonte de orgulho e de conquistas, é verdade (!), porém de dor e de cicatrizes que talvez jamais sejam curadas. Heróis e heroínas são imperfeitos e repletos de questões, dúvidas, inseguranças, medos e vulnerabilidades, embora nunca nos tenham mostrado tal faceta. Infelizmente, ainda não desenvolveram procedimentos estéticos para amenizar tais estados, visto que os mesmos são, muitas vezes, invisíveis ao olho humano. Somente o coração é capaz de harmonizá-los.

Já dizia o dicionário que o sinônimo de ser vulnerável é “ser fraco, ser frágil, ser inseguro, ser instável”. Trata-se de algum equívoco ou foi apenas uma inversão pelos antônimos e (ainda) não fomos informados? Houve errata? Não fui devidamente notificado... Ser vulnerável é ser corajoso e forte. É ser emotivo e emocional. É ser profundo e não raso... é ser humano. É ser-humano! É o que muitas vezes queremos ser, mas, por circunstâncias alheias e/ou adversas, não podemos. Sem adentrar pelas searas antropológicas e socioculturais, não ser vulnerável é o que aceitamos ou mesmo idealizamos. Afinal, não se pode (?) viver no senso comum... mas qual seria ele?

Parece-me ser aquele que racionaliza e mecaniza, por meio de uma interpretação positivista-newtoniana das coisas e das pessoas, que são julgadas por expressarem seus sentimentos, suas emoções. Que não foram “treinadas” a sentir, mas a executar, a entregar. De preferência, resultados efetivos! Alcançados por meio de ferramentas e de técnicas que foram aprendidas. Pelas habilidades que foram desenvolvidas e adquiridas. Porém, quem nos ensinou a habilidade de ser vulnerável? Quem me ensinou sobre vulner(h)abilidade? Eu não aprendi. Ou faltei estas classes... O fato é que cansei de ser forte. Ou melhor, de “performar” força. Eu só quero (me permitir) ser fraco, mesmo que por frações de segundos. Tampouco quero ser cobrado pela força de outrora. Porque eu cansei de ser sempre forte. E não há absolutamente nada de errado com isso. Eu só cansei. Can-sei.

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